Joga pedra na Renée!

Ok. O tema “Renée Zelweger”.

Recentemente estão todos chocados e comovidos com uma repentina mudança nas feições da atriz. As especulações são muitas. Desde “está doente” ou “fez muita plástica” ou “fez uma plástica que deu errado” até “Renée Zellweger foi sequestrada pelos Iluminatti, está escondida num baú, e essa mulher na foto trata-se de uma sósia do mal.”

Eu sempre achei esse escrutínio em cima da aparência das celebridades (ou sub-celebridades?) muito interessante.

A impressão que eu tenho é que em tempos mais remotos, as pessoas gostavam de fofocar sobre a vida alheia, mas a conversa recaía sobre alguma “atração” do bairro, uma pessoa de conduta moral duvidosa, ou espetaculosa (mulher, é claro). Nos bons tempos provincianos em que uma mulher podia ficar “mal falada” por causa do seu comportamento ou porque saía após as 18 horas sem acompanhante, não tínhamos uma massa populacional tão grande, nem facilidades de comunicação, nem a possibilidade de viajar de um canto ao outro do mundo em questão de horas.

Então coletivamente nos contentávamos com os últimos babados e escândalos da nossa rua.

(Scarlett O’Hara, viúva e dançando em público, em ‘E o Vento Levou': “- Mais uma dança e minha reputação estará perdida para sempre”)

O mundo globalizado, a internet, a sociedade digital, nos permitem um deleite incrível: fofocar mundialmente sobre uma mesma vizinha.

Sempre penso nisso quando vou ao salão de beleza (local onde cada conversa é um suplício…) e fico observando as rodinhas de mulheres fofocando apaixonadamente sobre a última revelação da revista “Caras”.

“- Cê viiu?! A _____________ (complete aqui) tá feia, tá gorda, tá sarada, teve filho, separou, traiu, tá namorando, fez ensaio sensual, tá grávida, divorciou pela sexta vez, fez plástica, saiu pra passear com o cachorro, comprou um café na Starbuck’s.”

(é CLARO que o mexerico é sempre sobre mulheres…)

A Juliana Paes, a Grazi Massafera, a Luana Piovani, a Lindsay Lohan e a Renée Zellweger são as novas vizinhas da casa no fim da rua.

Nós precisamos fofocar. Porque temos uma necessidade muito grande de tirar o foco dos nossos fracassos e da nossa droga de vida e apontar para os defeitos dos outros. E viver em 2014 é mesmo uma sorte, porque a globalização permite que um país inteiro, ou um planeta inteiro jogue pedras numa mesma Geni.

(MALDITA Geni)

Acho interessante ressaltar que há algumas décadas, a parte que importava era verificar se a mulher em questão preservava a moral, os bons costumes, a honra. Temos a mesma preocupação coletiva em relação à vida alheia, só que a obsessão sofreu um desvio: não temos preocupação moral, temos preocupação corporal.

A mulher do século XXI deve à sociedade uma boa aparência. Escândalo não é receber homem em casa e sem dama de companhia. Escândalo é engordar. Pecado não é usar saia acima dos tornozelos. Pecado é sair mal na foto.

Cena de “Mary Poppins” – AAAH!!!!

Aliás, podemos estar pensando que esse é um tema novo em folha, mas este artigo mostra que a imprensa e o público se ocupam de discutir o visual da atriz há pelo menos 13 anos.

Ser mulher é: ser reconhecida e valorizada pela sua aparência.
Ser celebridade E mulher é: sofrer perseguições quando você emagrece, engorda, enruga, desenruga, se veste, se despe, usa botox, não usa botox…

O público nunca está satisfeito. Sempre existe algo para ser dito. Justamente porque o aspecto IDEAL é um conceito que não é palpável. Está sempre longe de nós.

2001 – Renée Zellweger engorda para interpretar “Bridget Jones”. O público pira.
2002 – Renée Zellweger emagrece para interpretar Roxie Hart, no musical “Chicago”. O público sofre.
2003 – Suspeita de cirurgia plástica. Nos lábios. O público perde o chão.
2005 – Renée Zellweger aplica botox. O público não consegue lidar.
2007 – Exagerou no peeling, Renée. Não!
2009 – Notamos que Renée já não é tão jovem. O público sente calafrios.
2010 – Huuum… Sentimos falta daquele seu rosto angelical, Renéé. Você já não é mais uma menina.
2013 – Overdose de botox?! Ela não tem rugas!
2014 – O QUE ACONTECEU COM SEU ROSTO, RENÉE, DEUS DO CÉU!!

Então agora sabemos que essa análise coletiva sobre a aparência da Renée, nossa vizinha, não foi a única e não foi a última. Amanhã falaremos mal de uma pessoa pública diferente, para variar a conversa.