História de Eduarda

A leitora Eduarda enviou sua história contanto como foi conviver com a anorexia nervosa e suas várias internações em decorrência disso. Ela fala sobre medos e aflições típicas de quem enfrenta essa doença.

Fico cada vez mais impressionada com a quantidade de mensagens que recebo de pessoas que sofrem por causa da maneira que estamos lidando com alimentação e “beleza”… Espero que com essas publicações, mais pessoas possam se identificar e descobrir que não estão sós, e dessa forma buscar ajuda:

Duda

“No final da semana passada, eu que estava de folga, me peguei passando os canais da televisão afim de encontrar algo interessante. Me deparei com o programa ‘vídeo show’ da Rede Globo, que não é o que eu chamo de realmente interessante, mas como eu ainda não havia assistido o comentado ‘novo formato’ do programa, resolvi dar uma espiada. Eis que me deparo com o tipo de assunto que mexe comigo! E com quanta gente mais? Corpo, satisfação ou falta de. Zeca Camargo chamou para o palco do programa a atriz Cristiana Oliveira. De cara ele já foi falando ‘Você é linda, com esse corpo maravilhoso. Sempre foi assim de bem com a vida?’.

Perceba que ele foi logo ligando o corpão perfeito com o ser feliz, mas enfim, quase em todo lugar – infelizmente – se vê isso. O que chama mais atenção é a resposta dela que diferente do ‘tenho uma alimentação saudável e faço exercícios, sou muito feliz com isso’, foi…

‘Ah, Zeca, eu acho que todo mundo é feliz consigo mesmo e nasce se amando. Isso só muda a partir do momento que alguém te diz o contrário. Eu, por exemplo, era uma menina muito feliz comigo e meu tipo de corpo, mas eu fazia ballet e um dia uma professora não muito legal disse que eu estava gorda, que com aquele perfil nunca seria uma primeira bailarina. Ela disse que eu seria sempre ‘as de trás’, que fazem volume no palco para a melhor de todas brilhar. Eu fui para casa arrasada, eu era muito esforçada e como assim era gorda? De fato eu não era… Mas fiquei procurando no espelho aquele horror de pessoa que ela descreveu, até que encontrei. Desde aquele dia, graças àquelas palavras infelizes, nunca mais fui feliz comigo ou meu corpo. Eu entrei na luta para estar sempre dentro do maldito padrão.’

Enquanto ela contava isto, meus olhos se enchiam de lágrimas. Passei por algo semelhante! Nunca fui bailarina… Mas sempre perfeccionista, sempre. E as pessoas são um pouco cruéis em suas observações. Eu me amava, até que alguém me disse que não estava bem assim. Aos 14 anos travei uma luta desesperada contra a balança, porque a ‘menina mais alta, magra e que só tirava notas boas’ havia se tornado uma adolescente com o corpo em constante transformação e só havia lhe restado as boas notas. O ‘mais alta e mais magra’ da turma havia se perdido, e inacreditavelmente para a maior parte das pessoas era isto que importava: o físico.

Hoje, com 23 anos, perdi as contas de quantas internações tive. Quantas vezes parei em uma emergência de hospital, ou quanto dinheiro gastei tentando algum tratamento… Porque eu não podia comer. Porque me disseram que eu era bonita magrinha. E então eu me culpava pelas mudanças do meu corpo. Eu sofria por não poder sair de casa, porque eu não podia comer, eu não podia ‘ter corpo’. Eu perdi amigos, festas, formaturas, namorados. Perdi minha adolescência e minha juventude tentando perder apenas o meu peso.

 A única coisa que não perdi foi a lembrança de quando meu coração parou de bater. Não era só mais um desequilíbrio eletrolítico facilmente remediado com 24h em uma emergência. Dessa vez meu corpo resolveu gritar comigo: se tu não parar agora, eu é quem vou parar! E meu coração parou. E até hoje lembro, ao acordar sem saber nada do que havia acontecido, daquele médico me olhando triste e perguntando ‘Tu sabe o que estás fazendo contigo? Tão jovem, tão bonita. Por que isso?’

Naquele novembro de 2011 eu resolvi lutar não contra o meu peso, mas contra a importância que eu dava ao que achavam a meu respeito. Decidi procurar coisas que me deixassem satisfeita e feliz, fossem elas um bolo de chocolate ou uma salada de alface. Afinal, todas aquelas pessoas que ‘gostavam’ que eu fosse ‘magrinha e delicada’, aquelas pessoas que ajudaram muito para eu parar no tempo, não estavam lá quando eu chorava porque sentia fome e não me permitia comer. Não estavam lá quando eu me punia porque havia comido. Não estavam lá quando eu tremia, quando eu ficava em cadeiras de hospitais. Não estavam lá nas visitas das internações. Quem sempre estava lá eram as pessoas que não entendiam por que eu agia daquele jeito. Quem estava lá comigo, eram as pessoas que sofriam mais do que eu mesma. Infelizmente, estes pensamentos ainda não saem da minha cabeça. Me olho no espelho e não me sinto a pessoa mais bonita, ou mais feliz do mundo. Mas sei que meu bem-estar não envolve ossos visíveis. O sucesso nos meus estudos não envolvem dietas restritivas. A disposição para o meu trabalho não envolve exercícios físicos em exagero.

Hoje eu sei diferenciar o certo do errado no que diz respeito a mim. E luto por isso diariamente. Mas algo que me dói muito ainda é que quando você está bem, as pessoas não sabem reconhecer isto. Elas dizem ‘nossa, como você engordou’. Caramba, eu engordei?! E sua mente se enche de lembranças e paranoias… Claro que não. Tu não engordou exatamente, mas sim atingiu seu peso saudável. Aprendeu a saborear os alimentos e a vida. Isto é o que deveria importar. As pessoas não deveriam comparar o seu estado doente com o seu estado atual a partir do peso do seu corpo e sim a partir do sorriso e leveza na alma que você carrega.

Mas muitas pessoas ainda não aprenderam isto. Por esses motivos meu coração sorri ao ver páginas como o NSE e algumas poucas outras que seguem esta linha. Senti na pele (e sinto) as dores dessa luta interminável por um padrão que não existe, que não tem fundamento. E páginas mostrando a realidade dos fatos, talvez ajudem algumas pessoas a entenderam o quanto pequenas palavras podem ferir alguém e transformar a vida dessas pessoas. É muito fácil você entrar nesta loucura toda quando alguém o faz acreditar que não és boa o suficiente, que estás feia. E depois que se entra, é muito-muito difícil sair com um simples: você está linda. Todo o resto pesa mais. Se amar, se enxergar como se é de fato, é totalmente possível – só que é uma luta diária contra todas as revistas, programa de televisão e pessoas ‘não tão legais assim’, como mencionou a Cristiana Oliveira.

Eduarda.”

Duda, achei interessante o que você falou sobre como as pessoas que têm uma opinião para dar, ou uma preferência sobre como deveríamos levar nossas vidas, não são aquelas que permanecem ao nosso lado quando as coisas ficam difíceis. Muito importante preservarmos o contato com aqueles que realmente se importam conosco, não interessando nossa aparência nem nosso tamanho. Como a Cristiana Oliveira falou, algumas pessoas não são tão legais assim. E muitas vezes ser famosa & bonita, ter “corpo perfeito” não é garantia de felicidade.

Força, Duda! Seja feliz! Te desejo sucesso. :)