O antúrio e o lírio

Estou na reta final do estágio em nutrição clínica, e tenho que admitir: os primeiros dias não foram fáceis.

Não foram fáceis, porque as atividades exigem qualidades que não são o meu forte: pensamento rápido, proatividade, sagacidade, habilidade para múltiplas tarefas.

No hospital existem muitas coisas acontecendo, muitas tarefas a serem realizadas, muitos protocolos para serem seguidos. É bastante técnico.

Me lembro que nos primeiros dias eu fiquei triste por não ter as habilidades necessárias para fazer um excelente trabalho ali.

Quero dizer, eu faço. Mas não é um trabalho excelente. Eu faço. No entanto, faço devagar.

Porque eu sou uma pessoa subjetiva, um tanto avoada, nada técnica e com uma ligeira queda por quebras de protocolo.

Quando eu fico triste, eu procuro ficar uns momentos sozinha. Então nesses primeiros dias de estágio eu passei vários instantes na capela que fica no segundo andar do Hospital das Clínicas. Eu gosto de estar a sós para colocar as ideias em ordem.

Eu estava triste porque estava pensando: “Por que eu sou tão distraída? Por que eu sou tão ‘lerda’? Por que eu não sou mais produtiva?”

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Mas ali estavam os elementos que eu precisava para me restabelecer: um lírio e um antúrio.

flores

Eu fiquei observando os dois tipos de flores durante alguns minutos. O lírio era expansivo, imponente, volumoso. O antúrio era tímido, compacto, modesto.

No altar há sempre várias flores que as pessoas deixam como presente, agradecimentos ou pedidos. Também há vários bilhetes para o ladrão de arranjos dizendo que “Deus testemunha todos os atos” e “Por favor não retire as flores! Tenha respeito!”

(Recado do NSE ao ladrão de arranjos da capela do HC: não faça isso, é uma coisa muito feia e dá muito trabalho para a Irmã Glacy, que cuida do altar.)

Enfim. Eu fiquei observando como o lírio e o antúrio eram pronunciadamente diferentes e como eu não podia necessariamente afirmar que um dos dois era mais bonito ou tinha mais valor. Eram apenas flores muito distintas.

Aí eu tive uma ideia reconfortante: “este estágio é ideal para lírios… e eu sou um antúrio.”

Mas ei. Não há nada de errado em ser diferente. A questão é que nem sempre temos todas as características necessárias para estar em determinado ambiente ou cumprir determinada tarefa.

Talvez pessoas sejam como cartas de Super Trunfo, ou personagens de RPG. Temos qualidades mais ou menos fortes. Ninguém tem TODAS as qualidades (talvez no jogo de tabuleiro, mas não no jogo da vida)… E a parte que importa é como administramos os nossos dons e jogamos nossas cartas.

(“heroísmo 2″ me representa ^^’)

Muitas vezes nos sentimos desvalorizados por não sermos capazes de dar conta de um determinado tipo de situação, e esquecemos que podemos nos sair melhor em outras.

Estamos imersos na cultura do resultado e da perfeição, mas querer dar conta de tudo é como tomar um expresso com destino à frustração.

O mundo tem lugar para lírios, antúrios, tulipas, orquídeas e violetas! E a graça de tudo isso está justamente na diversidade.

Me adaptei ao trabalho, venci o desafio e continuei. Mesmo que não faça um trabalho perfeito. Não fiquei mais triste porque a diferença é justamente o fundamento de um lindo campo de flores.